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Patrono

 JOAQUIM ROMERO MAGALHÃES 

 

“eu nunca trabalhei, sempre me diverti com aquilo que fiz.”

Excerto retirado da Última Lição do Prof. Doutor Joaquim Romero Magalhães, proferida no dia 18 de Abril de 2012. Notas económicas, (36), 10.

 

 

Os que desenvolvem atividade na área científica das Ciências Sociais, nomeadamente em História, identificam de imediato o nome Joaquim Romero Magalhães, associado, sobretudo, a uma notável obra de docência (exercida durante 43 anos, 39 dos quais na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra), investigação, divulgação e participação cívica, centrada nas transformações políticas, sociais, económicas de Portugal, nomeadamente do concelho de Loulé.

A sua obra é um legado para o conhecimento da História de Portugal e a ele se devem, também, algumas transformações no ensino académico.

Apresentamos aqui o essencial da sua biografia por ele abordada e intitulada “Ultimas palavras?”[1], para que melhor fiquemos elucidados sobre quem é a personalidade que, por decisão da Câmara Municipal de Loulé, foi designado patrono do Arquivo Municipal de Loulé em 2021.

Joaquim Antero Romero Magalhães nasceu em 18 de abril de 1942, em Loulé, em casa dos avós maternos, situada na Praça da República. Precisamente 100 anos depois do nascimento de Antero de Quental, dai o seu segundo nome. Era filho de Célia Vasques Formosinho Romero, professora do Conservatório de Música daquela cidade, e de Joaquim da Rocha Peixoto Magalhães, professor de francês e português no liceu João de Deus, em Faro.

Iniciou o ensino primário, em 1948, em Faro, com a professora Maria da Glória Martins e o ensino secundário, em 1952, no liceu onde trabalhava o pai, de quem foi aluno. Em 1959, prosseguiu os seus estudos na Faculdade de Direito de Coimbra. Como não se identificou com a área jurídica, transitou para a Faculdade de Letras de Coimbra e ingressou em História. Embora tenha completado o curso em julho de 1965, iniciou a investigação, no arquivo da Câmara Municipal de Loulé, para a dissertação, necessária de modo a ser-lhe atribuído o grau de licenciado, tendo, desde logo, constatado a riqueza da documentação à guarda desta instituição, o que lhe permitiu estudos futuros sobre a história do concelho. Defendeu a sua tese em novembro de 1967, intitulada “Para o estudo do Algarve Económico durante o século XVI”, publicada em 1970.

Joaquim Romero Magalhães frequentou a Associação Real República Prá-Kys-Tão (alojamento da comunidade estudantil). Enquanto estudante universitário, participou no associativismo académico para poder contestar a repressão do regime do Estado Novo às iniciativas estudantis. Em maio de 1962, com outros colegas, ocupou a Associação Académica no Palácio dos Grilos.  Estas manifestações dos estudantes universitários foram impedidas pelo Governo de forma violenta, desencadeando a Crise Estudantil de 1962.

Foi presidente da Associação Académica e do TEUC - Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, no que também participou.

Durante o serviço militar, no ano letivo de 1969-1970, deu aulas noturnas, na Escola Industrial e Comercial de Espinho. No ano letivo de 1970-1971, foi professor estagiário de História e Filosofia no Liceu Normal de D. Manuel II, no Porto, período em que foi utilizador assíduo da Biblioteca Pública Municipal do Porto. Em novembro de 1971, ficou efetivo naquele estabelecimento de ensino, sendo nomeado no ano seguinte como assistente pedagógico e logo de seguida metodólogo. No entanto, pelo seu empenho e competência, foi convidado por Eduardo Correia, diretor da nova Faculdade de Economia de Coimbra, para lecionar a cadeira de História Económica, a partir de outubro de 1973.

As transformações causadas no país pela revolução 25 de Abril de 1974, levaram Joaquim Romero Magalhães a representar o Partido Socialista, durante alguns meses, na Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Coimbra, sendo depois eleito para deputado à Assembleia Constituinte tendo, por isso, participado na elaboração da Constituição da República de 1976. Ainda naquele ano ingressou na Secretaria de Estado da Orientação Pedagógica onde permaneceu até junho de 1978. Neste período privou com figuras como Pilar e David Mourão Ferreira, Natália Correia, Lima de Freitas, João Palma Ferreira, Iva Delgado (filha do general Humberto Delgado) e Madalena Azeredo Perdigão. No entanto, dada a instabilidade política que então ocorria, afastou-se e começou a trabalhar na sua tese de doutoramento, orientada pelo historiador Vitorino Magalhães Godinho, defendida em 3 de outubro de 1984, com o título “O Algarve económico: 1600-1773. Este trabalho foi publicado em 1988.

Joaquim Romero Magalhães, em 1984 e em 1995, recusou a nomeação para diretor da Biblioteca Nacional. No entanto, assumiu a presidência do conselho diretivo da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra entre 1985 e 1989 e novamente entre 1991 e 1993, cujo interregno deu-se para fazer parte do Conselho Científico. Neste seu cargo como dirigente empenhou-se para criar naquela Faculdade o programa Erasmos de intercâmbio de estudantes e professores.

Foi acérrimo lutador para a construção de um edifício para a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, que, apesar dos obstáculos colocados pelo Ministério da Educação ao projeto, foi inaugurado em 1990.

Joaquim Romero Magalhães presidiu a Assembleia Municipal de Coimbra entre 1986 e 1998, apesar da sua intensa dedicação à vida académica, entre 1999 e 2002 interrompeu esta atividade profissional para desempenhar funções de Comissário-Geral para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.

Pela sua elevada competência e prestígio participou em mestrados, doutoramentos, agregações e concursos por todas as universidades portuguesas. Lecionou também fora do país, nomeadamente, na École Pratique des Hautes Études, em Paris, entre 1989 e 1999, na Universidade de São Paulo, entre 1991 e 1997 e na Universidade de Yale no ano 2003.

Foi autor e editor em diversas publicações, desde logo, em 1972, quando publicou, na revista Seara Nova, o primeiro artigo de mais de uma centena que escreveu durante a sua vida. Apesar de nunca ter pertencido a qualquer centro de investigação produziu diversos trabalhos dos quais destacou como os mais desafiantes e importantes para si, a coordenação do terceiro volume da História de Portugal, “O Alvorecer da Modernidade”, publicado em 1993, obra dirigida pelo professor José Mattoso; a "História da Companhia de Seguros Tranquilidade", publicada em 1997, de que foi o autor; o Tomo XVIII Historia de España de Ramón Menendez Pidal “La época de los Descubrimientos Y Las Conquistas (1400-1570)” onde foi um dos autores; e na obra "História da Expansão Portuguesa" na qual colaborou como autor nos seus três primeiros volumes, publicados em 1998.  A investigação que realizou para estes trabalhos levaram-no a dar continuidade ao estudo da história da expansão e da história do Brasil de que resultou a obra, “Labirintos Brasileiro”, publicada em 2011.

Foi ainda autor de outras obras, tais como, “Vem aí a República! 1906-1910”, publicada em 2009, “Miunças”, uma obra em 5 volumes, sendo o último publicado post mortem.

Recebeu diversas condecorações, de entre elas a de Comendador da Ordem do Mérito Cultural do Brasil, em 1999 e a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, atribuída pelo Estado português, em 2020.

Joaquim Romero Magalhães, professor catedrático (1994) jubilado (2012) da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, falecido, em 24 de dezembro de 2018, em Coimbra, foi, é e será, sempre, um nome ilustre na identidade do concelho de Loulé, um historiador perpetuado no estudo da História de Portugal e por isso uma referência para todos aqueles que desenvolvem trabalhos nesta área científica e por aqueles que se interessam pela história do país e de Loulé. Em sua homenagem, a Câmara Municipal de Loulé criou o Prémio Joaquim Romero Magalhães através da revista Al-úlyá. Também a Universidade do Algarve, 12 dias antes da sua morte, atribuiu-lhe o título de Doutor Honoris Causa.

 

 

[1] Círculo FEUC (2012). Última Lição do Prof. Doutor Joaquim Romero Magalhães, proferida no dia 18 de Abril de 2012. Notas económicas, (36), 1-10. https://doi.org/10.14195/2183-203X_36_3